O amadurecer que pede acolhimento

Vivemos tempos em que tudo parece acontecer cedo demais. Os corpos crescem antes da alma estar pronta, e o que deveria ser um florescer interno vai sendo substituído por estímulos que empurram nossas crianças e adolescentes para uma pressa que não condiz com sua biografia.

Quando falamos do amadurecer, não estamos nos referindo apenas às mudanças do corpo. Falamos de um processo mais amplo, que começa desde os primeiros vínculos e se prolonga até o momento em que o ser humano se percebe capaz de se encontrar verdadeiramente com o outro, com respeito, com afeto e com consciência.

O problema é que muitos dos referenciais que antes vinham do cuidado dos adultos, da escuta dos pais, da observação silenciosa do educador, hoje vem das telas. E o que aparece ali, com frequência, não é um caminho de encontro, mas de exposição e consumo.

Esse desequilíbrio silencioso tem deixado marcas. No consultório, recebo cada vez mais jovens com sentimentos de inadequação, tristeza, desconexão de si. Muitos sequer entendem o que sentem, apenas intuem que algo está fora do lugar.
É por isso que, como pais, mães, educadores e profissionais da saúde, precisamos estar atentos e conversar sobre isso. Porque a alma da criança e do jovem está formando suas imagens de mundo agora, e se nós não oferecermos referenciais verdadeiros, simbólicos, belos e coerentes, outros ocuparão esse espaço.

Um dos caminhos possíveis é o das histórias. Contos, mitos e lendas podem ser pontes poderosas para que a criança vá compreendendo, em sua linguagem simbólica, o valor do corpo, a beleza do encontro, a sacralidade da vida. Narrativas como Eros e Psiquê, As Brumas de Avalon ou histórias sobre reis, cavaleiros e jornadas interiores ajudam a alma a criar imagens de força, coragem, amor e integridade — qualidades essenciais para uma vida de vínculos saudáveis e verdadeiros.

Mas nada disso pode ser entregue de fora para dentro. É preciso que também cultivemos essas imagens internamente, porque a criança sente o que é verdadeiro. E quando falamos com palavras que não ecoam dentro de nós, elas não fazem morada.

Esse é um dos sentidos mais profundos do meu trabalho: ajudar mulheres, mães e cuidadoras a se reconectarem com sua própria história, com sua própria imagem de corpo e de cuidado, para que possam entregar isso às crianças com verdade.

Falar sobre o amadurecer é, também, ensinar sobre o tempo certo das coisas, protegendo a infância, sustentando a puberdade e apoiando a juventude com presença e escuta. E isso não é tarefa de um só: é um chamado coletivo para todos que desejam ver nossas crianças crescendo inteiras, no corpo, no coração e na alma.