A partir do nascimento, o bebê deixa de viver onde, por meses, esteve completamente envolvido e protegido pelo corpo materno, recebendo alimento, ritmo, continência e toda a segurança necessária para um crescimento saudável. Mas, assim como o desenvolvimento no útero, nascer também faz parte da experiência de estar no mundo, sendo a amamentação uma espécie de segundo envoltório que, nessa transição, ajuda a dar a continuidade do lado de fora, proporcionando muitas dessas vivências de calor, ritmo, proximidade e proteção.
Finalizando o mês do Agosto Dourado, em que ampliamos a conscientização sobre a importância do aleitamento materno, gosto de lembrar, para além de todos os benefícios já conhecidos do leite, sobre o que acontece nesse encontro entre mãe e filho a partir de um olhar mais ampliado da saúde. Porque o bebê pequeno conhece a vida principalmente através do corpo e de sentidos como o toque, a temperatura, o cheiro, a fome, o conforto e o desconforto. E é através dessas experiências tão concretas que ele vai, pouco a pouco, percebendo a si mesmo e criando suas primeiras referências sobre a vida.
Por isso, mesmo depois que mãe e bebê já aprenderam a amamentar e tudo parece acontecer naturalmente, é importante preservar, sempre que possível, a qualidade desse encontro, para ambos. O tato, por exemplo, tem um lugar muito importante: o corpo da criança é tocado, aconchegado, muda de posição, encontra o corpo materno. E o próprio bebê toca a mãe, procura seu rosto, encontra seu olhar em situações que podem até parecer simples mas que são bem profundas quando pensamos em vínculo e desenvolvimento, numa construção que inicia bem antes de andar, falar, pensar, aprender, relacionar-se.
É importante, além de alimentar, pode olhar para o bebê, estar presente, perceber suas manifestações, permitir que aquele momento continue sendo uma relação e não se transforme apenas em mais uma tarefa dentro de dias que já são tão exigentes para uma mulher e, ao mesmo tempo, cuidar da mãe. Pois a amamentação precisa ser gentil para ela, uma mulher que acabou de parir e também está atravessando uma enorme transformação. Para tanto, ela também precisa receber cuidado, descansar, se alimentar e hidratar. Precisa sentir segurança e confiança, e pessoas ao seu redor que compreendam que apoiar a amamentação também significa cuidar concretamente de quem amamenta. Além disso, dificuldades e intercorrências podem surgir e merecem atenção, sem que a mulher precise atravessá-las sozinha.
E quando a amamentação no peito não é possível, o bebê continuará precisando de vínculo, calor, toque e presença, que podem ser transmitidos através de colo, massagem, contato corpo a corpo e, conforme cresce, a liberdade de experimentar diferentes texturas, temperaturas, a terra, a grama.
Hoje e sempre, meu desejo é que possamos defender e valorizar o aleitamento materno sem transformá-lo em mais uma cobrança dirigida às mulheres, oferecendo informação, orientação e condições reais para que as mães que desejam amamentar sejam sustentadas nesse caminho. E que, em meio a tantas recomendações sobre horários, pega, produção de leite e outras questões que naturalmente fazem parte desse período, não percamos de vista algo muito simples e profundamente humano: há uma mãe e um bebê aprendendo a se encontrar.


